História da Escalada Do Nordeste

 

A História da Escalada do Nordeste encontra-se um pouco “perdida” na história da Escalada Brasileira, No entanto o Marco Inicial da Escalada no Brasil, a conquista do Dedo de Deus em 1912, está fortemente atrelada ao Nordeste, visto que o ferreiro José Guimarães Teixeira que desenvolveu os primeiros grampos artesanais no Brasil e participou de forma contundente na conquista da via era Pernambucano, assim pode-se dizer que a Escalada do Nordeste está diretamente interligada a Escalada Brasileira desde a sua gênese. Posteriormente, há algumas histórias perdidas no tempo, como uma via ferrata conquistada em Patu/RN nos idos de 1930/1935 por Antônio Solano  recentemente em processo de resgate histórico. Temos ainda o registro da conquista do Pico de Fernando de Noronha na época da 2º Grande Guerra Mundial, 1940/1945, por soldados americanos e posteriormente repetido por soldados brasileiros movidos pelo orgulho ferido, infelizmente o Pico hoje em dia está proibido de ser escalado por estar em uma área de proteção integral, há também um registro de uma segunda conquista ali feita por André Ilha, a via “Vamo embora pro caju”. A partir de então passamos por um hiato na história da Escalada do Nordeste e os primeiros registros da escalada moderna, como a conhecemos hoje em dia, são por volta do final da década de 1980 inicio de 1990, algumas dessas primeiras conquistas também perdidas na história, com a ajuda do Antonio Paulo conseguimos recuperar através de seu relato parte dessa história:

“A primeira vez que fui ao Nordeste do Brasil, foi em 1986, na Chapada Diamantina, Lençóis havia sido “descoberta” pela TV Globo um ano antes e até então a Chapada Diamantina era completamente desconhecida do resto do Brasil. Era uma excursão da Escola de Engenharia Química da UFRJ, Fomos com o objetivo de abrir uma via no Pai Inácio. Levamos pitons, algum material móvel, talhadeiras (brocas) e mareta para fixar os grampos. Mas antes abrimos duas vias no Ribeirão do Meio (Lençóis), numa “falésia” que fica a esquerda, uns 200 m acima do Escorrego. Equipei a via com material móvel e depois guiamos – Diamante Cor de Rosa (VIIA). Ou seja, foi uma das primeiras vias no Brasil que chamamos hoje de “móvel esportiva”. Escalamos outra via ao lado, mas não lembro dos detalhes, nem nome, devia ser um quinto grau.

Uma semana depois fomos para o Pai Inácio, eu e a Valéria, até então desconhecia totalmente se alguém já havia tentado escalar na Chapada Diamantina. Enfim subimos uma espécie de canaleta bem na direção da cruz do topo, colocando stoppers e excentrics. Mas trinta metros acima chegamos a uma parte sem fendas. Tentei fixar um grampo, mas quebrei as duas brocas rudimentares que levamos para furar aquele quartzito rosa, extremamente duro – Hojeeu sei que é uma das rochas mais duras que existe, formada há quase 2 bilhões de anos – não consegui colocar grampo, daí resolvemos abortar aquela missão. Por sorte consegui colocar dois pitons e descemos da parede – Cruz credo!! Os pitons estão lá para contar a história.”

“Em 2011 voltei na mesma linha juntamente com o Formiga e o Cassiano Procópio, ambos do Paraná, Eu não lembrava de nada, subi até onde havia parado e fiquei horrorizado com a quantidade de blocos soltos. O Formiga continuou a via por mais uns 15 metros, fixando grampos, dizendo que podia ser oitavo grau. Enfim, descemos e ficamos de voltar lá qualquer dia, a batizamos de “Sociedade Anônima”, A linha foi finalizada em 2017. Nessa mesma época abrimos várias vias esportivas e com proteções móveis em Lençóis e Igatu”.

No período de fins da década de 1980 e inicio de 1990 houve também a conquista da Pauliceia Baiana, no Pai Inácio, considerada por muitos como a primeira via da região.

Sabe-se ainda que houveram algumas conquistas do André Ilha em Quixadá, na Pedra da Galinha Choca, escalada totalmente em móvel e que posteriormente foi grampeada na via que hoje é conhecida como “Normal da Cabeça”. Quixadá já e na atualidade um local de escalada bem consolidado, recebeu o EENE em 2015 conta com diversas vias clássicas e uma das maiores vias de escalada do Nordeste a Cachalote com seus imponentes 530 m. Além da não tão recente Tejuçuoca um paraíso de Calcário bem no meio do Ceará e que já tem mais de 100 vias conquistadas, número batido no final de 2017 durante o evento TEJU100.

Os primeiros escaladores do Rio Grande do Norte tiveram curso de Escalada em Rocha com o instrutor Alex Guardiola em Gravatá/PE na Pedra Branca, a via existente na época a “Chuvada do Sertão” isso por volta de 1992/1993, em 2017 Brejo da Madre de Deus, um local já consolidado em Pernambuco recebeu o EENE, atualmente brejo conta com algumas centenas de vias de escalada com forte raízes na escalada tradicional, contando inclusive com a maior via de escalada, a Sublimação Direta com 470 m na Serra do Ponto, que coincidentemente é o ponto mais alto do Estado.

Há alguns relatos escassos de conquistas do André Ilha e do Antonio Paulo Faria, autor do livro A Escalada Brasileira, que teriam conquistado as primeiras vias do Maranhão e do Piauí, totalmente em móvel. Veja o relato do Antonio Paulo Faria que nos ajuda a recontar partes dessa grande história:

“Em fevereiro de 1991, eu e o José Augusto Mattos fomos a Serra da Capivara. O Parque Nacional estava só no papel. Abrimos uma via em móvel muito fácil, num daqueles cones que intercalam camadas de conglomerado com camadas de arenito. A escalada de uma enfiada devia ficar entre segundo e terceiro grau.

Chegando na parte de cima, fomos fazer uma caminhada na caatinga…Foi uma experiência horrível/interessante”. Levamos pouca agua e que acabou logo. Nunca passei tanta sede na minha vida. bebemos água de uma pocinha barrenta que encontramos no chão! hahahaha – Por isso o nome da via ficou conhecida como “Mato Um Amigo Por Um Copo de Água” – No ano seguinte o Ronaldo Franzen Nativo foi la acompanhado e abriram outra via.”

Serra Caiada/RN teve recentemente o aniversário de 20 anos da primeira proteção fixa do estado na via Grampeleta e a primeira via tradicional a Genesis ambas conquistadas por volta de 1996. Atualmente Serra Caiada conta com algumas centenas de vias, além de uma via listada na “50 Clássicas no Brasil” assim como também Sítio Novo tem a Cavalo de Troía. O RN recentemente tem apresentado diversos novos picos de escalada, como Serra do Cuó que atualmente passa por problemas de acesso, Martins com um projeto inacabado, Alexandria, Serra Negra do Norte, Currais Novos com os boulders no Cânion dos Apertados, Além de outros pontos temos Patu, que receberá o EENE 2018 e atualmente conta com a maior via de escalada do Nordeste a Morada dos Deuses com 720 m.

A Paraíba tem feito história com escaladores destemidos, as primeiras vias paraibanas conforme relatos seria na Pedra da Boca, muito provavelmente a via Sacra, conquistada no inicio da Década de 1990, hoje a Pedra da Boca é de renome nacional, contando inclusive com uma via nas “50 clássicas no Brasil” a Fratura de Tempora. Além de Algodão de Jandaíra um local surreal de muita escalada de qualidade, Patos que vem sendo desenvolvido desde 2013 e que já conta com algumas dezenas de vias tradicionais clássicas e muito potencial a desenvolver, assim como Quixadá a cidade é rodeada por imensos blocos de até 200 m; há também o Parque do Poeta, o Banguelo, Bananeiras, Pilões entre outros.

Agora em 2018 alguns escaladores Maranhenses abriram as primeiras vias com proteções fixas na Chapada das Mesas, a via “1º Pessoa do Plural” e mas algumas vias aproximadamente seis vias de escalada esportiva, onde pudemos colaborar junto com Janine Falcão contribuindo com chapeletas e material de conquista.

Em Alagoas temos os Psicoblocs no Cânions do São Francisco e Santana do Ipanema, descoberto por Felipe Dallorto e a Flávia dos Anjos e que ganhou forte divulgação com o Evento Redbull Psicobloc, que já rolou em vários cantos como Mallorca e na Colômbia, além de ter recebido o renomado EENE no ano de 2016.

Em Sergipe a Pedra da Arara em Macambira. Assim, podemos afirmar que de fato há escalada em Todos os estados nordestinos.

No fim da década de 1990 e inicio dos anos 2000, aproximadamente, alguns escaladores nordestinos começaram a se reunir, a partir daí surgiu a ideia do que hoje conhecemos como EENE (Encontro dos Escaladores do Nordeste), o maior evento de escalada itinerante do Brasil, itinerante porque tem como regra cada ano ser em um estado diferente, ainda com o foco de desenvolver novos picos de escaladas pelo Nordeste e através de oficinas e palestras difundir o conhecimento da escalada entre seus praticantes e angariar novos praticantes que passem a ter contato com esse esporte, os últimos encontros tiveram uma média de mais de 200 escaladores inscritos.