“Ainda Não Mijei Hoje”

Minha primeira impressão da serra do Cuó foi incrível. A vista de longe é de duas enormes paredes laranja que só me lembravam as imagens que vi das tão aclamadas paredes da Catalunia espanhola. Já passavam da 9:30 da manhã e o sol não estava de brincadeira, a trilha era claramente longa e exposta, o que me deixou com um sentimento misto de “eu preciso ir nessa linda parede AGORA!” intercalado com “Eu não quero subir essa trilha de jeito NENHUM! ” Para minha sorte (ou não) os amigos Janine Falcão e Allyson Laurentino tinham programado algo bem mais amigável para o pouco tempo que tínhamos disponível. Acontece que ao longo da inclinada vegetação que se forma aos pés dos dois paredões, a superfície é recoberta de enormes blocos de pedra, tão grandes quanto a famosa pedra do Urubu no Rio de Janeiro. Blocos que talvez tenham rolado dos paredões em algum momento do passado, análise que deixo pros geólogos. Muitos blocos, com todas as faces verticais e negativas, oferecendo inúmeras vias e permitindo que os escaladores escolhessem o lado da sombra e se ajustassem a mesma ao longo do dia. E o que mais me chamou a atenção foi a existência de fendas, muitas fendas, e devo admitir que esportiva com proteção móvel é um dos meus estilos favoritos. Escalei algumas vias ali e no fim me deparei com uma linha que me chamou muito a atenção. Perguntei que via era e o Allysson me confirmou que era um projeto. Que o conquistador, Victor Hugo Vasco, tinha montado a linha mas não tinha conseguido a tão desejada “cadena” que move o escalador de esportiva. Me interessei e resolvi tentar. Primeiro em “top rope”. Se não tinha cadena devia ser muito acima do meu grau, mas para a minha surpresa não era. O grau da via concentra-se nos dois movimentos inciais, um boulder de calcanhar seguido de um movimento dinâmico. Cheguei a sugerir 7c, mas depois de escalar mais pelo nordeste achei melhor deixar 7b, sim amigos, o grau deles é duro! E a graduação deve ser mantida de acordo com o local. Na primeira tentativa guiando me “emocionei” e não consegui repetir a saída, a cadena só saiu depois de um descanso, um lanchinho e um terceiro e último “pega”. Virando o boulder a via fica bem fácil, algo como um 4o grau a ser protegido com um camalot .75 ou equivalente.

Já que o Allysson me garantiu que eu tava levando a “primeira ascensão” ele me deu o direito de dar o nome da via, e eu sugeri “Ainda não mijei hoje” singela homenagem ao “chilique” do dia anterior que só quem estava no 14 EENe presenciou. Depois de um dia no Cuó eu olhei pra trás de novo e voltei a encarar os dois paredões. Refleti sobre o local, sobre um 7b sem cadena e terminei com minha segunda e última impressão do Cuó. Muito potencial! Uma rocha magnífica, cheia de fendas, com oportunidades para todos os níveis, níveis de escalada ou de disposição. Um local que vem recebendo escaladores conquistadores, mas que ainda não tiveram tempo nem de encadenar as próprias vias, será que é porque ainda não conseguiram parar para escalar? De tanta parede que tem para conquistar? Porque cada linha que se abre, a próxima é mais bonita e mais chamativa? Só sei de uma coisa, se as 9:30 eu não tinha certeza se queria “chegar lá”, as 13:30 eu só pensava em chegar lá “de qualquer jeito!!!”

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