Cordas precisam descansar?

Algumas semanas atrás eu estava em um pico de escalada local, quando um dos meus colegas perguntou se eu me incomodaria de responder uma questão “tecnico-científica típica questão de engenharia”. Ele queria saber porque cada queda que ele levava enquanto estava desenvolvendo seus “projetinhos” pareciam progressivamente mais dolorosas. Eu mencionei que uma velha publicação da Freedom of the hills assim como uma numerosa quantidade de revistas de escalada mencionavam sobre deixar suas cordas “descansarem” entre quedas fortes ou mesmo trocar as pontas antes de tentar o movimento do crux novamente. Isto e claro para reduzir a sobre-carga sofrida, o que pode se tornar especialmente critico quando se escala com equipamento danificado, A Corda e a peca fundamental que ajuda a absorver energia quando o sistema esta elastecendo – e assim como um elástico, eh preciso tempo entre cenários de cargas expressivas para descansar e então poder absorver a máxima quantidade de energia no próximo esforço. Meu amigo me encarou, claramente não tendo a menor ideia do que eu estava falando.

Ele continuou e perguntou se haveria algo que ele poderia fazer para diminuir as dores nas suas falanges, e reduzir a carga de equipamento necessário. Mas alem disso ter uma segurança dinâmica. Use uma corda de alta elasticidade, folgue um pouco seu no após cada pequena queda (Porque os nos também absorvem energia durante uma queda), deixe a corda descansar entre cada tentativa, e use nylon slings e costuras que absorvam mais energia que a Spectra/Dyneema (que não elastece).

Para tentar colocar alguns números, eu e alguns integrantes do grupo QA Engenharia desenvolvemos um rápido plano de teste e executamos na torre de testes. Nos percebemos que tentariamos perceber diferenças de cargas sofridas em cada equipamento da proteção quando:

Executando sucessivas quedas o mais rápido possível na mesma corda
Descansando a corda 30 minutos entre cada tentativa
Folgando o no entre as tentativas
Deixando a corda descansar 2 horas entre as tentativa
Deixando a corda descansar um dia inteiro entre cada tentativa

Nota Informativa: Esse não pretende ser um teste complexo, nem tese de PHD, apesar do pequeno caráter cientifico. Claro que há muito muito mais que poderiamos fazer para melhorar isso. Esta informacao limitada a uma pagina de resumo e apenas uma tentativa de dar aos escaladores um pouco de alimento para a imaginacao. Apenas isso.

Configuração do Teste:
BD drop tower (sem certificação da UIAA)
80 Kg de massa rígida de aço
Freio Estático (isto e critico, apesar de ser atípico ou realista, e repetível e nos permite isolar variáveis que nos interessa)
Corda de 10,5mm (nova)
Corrente usado como costura
Cenário tipico de queda de guiada
Fator de queda: 0.26

Linhas gerais do teste (corda descansando 5 minutos entre as cargas)
Usando uma seção da corda no teste conforme descrito acima, a massa foi liberada e a tensão foi tensionada (na parte superior do equipamento).
A massa foi subsequentemente levantada de volta ate a mesma altura e novamente jogada após a marca de 5 minutos.
O teste foi repetido por 10 vezes.

Folgando o No

Assim que as cargas era relativamente pesadas durante este teste, nos percebemos que não seria tão fácil folgar os nós, então nos decidimos colocar um mosquetão dentro do 8 duplo. Isso permitiu que folgassemos o no a cada queda, e a massa era subsequentemente levantada a mesma altura e jogada novamente a marca de 5 minutos.
Isso foi repetido por 10 vezes.

Corda descansando 30 minutos entre cada carga

Mesmas linhas gerais do teste anterior no entanto a corda descansou 30 minutos entre cada tensão de carga, repetido por 10 vezes.

Corda descansando 2 horas entre cada carga

Mesmas linhas gerais dos testes anteriores no entanto a corda pode descansar por 2 horas entre cada carga e só foi repetido uma vez.

Corda descansando 24 horas entre cada carga

Mesmas linhas gerais dos testes anteriores, no entanto a corda pode descansar 24 horas e a carga só foi liberada uma única vez.

Observações:

1. Como esperado, progressivamente os resultados aumentam as forcas.
2. As maiores cargas foram para a primeira e segunda carga, como esperado.
3. Folgar o no após cada queda reduziu um pouco a tensao, porem não muito.
4. Deixar a corda descansar 30 minutos entre cada tensao sofrida teve um efeito muito maior do que reduzir a tensao do sistema do que folgar uma corda, porem ainda não foi expressivo.
5. Permitir a corda descansar 2horas e 24horas teve um efeito de reduzir as tensoes na segunda carga.
6. Permitir a corda descansar 24horas ainda resultou numa tensao 11% maior do que na primera carga.

Conclusao:

Folgar o seu no, ou deixar a corda descansar antes da próxima queda reduz os impactos das cargas levemente. No entanto, usar cordas diferentes para cada tentativa ou trocar os lados da corda produz um efeito muito mais positivo. E claro que a melhor opção para manter as tensoes no sistema minimizados e não cair, em primeiro lugar. Como declarado anteriormente, isto não e um estudo exaustivo e existem muitos outros testes e experimentos que poderiam ser realizados se não estivessemos ocupados fazendo o melhor equipamento de escalada do mundo. Por exemplo:

“Quanto tempo demora para que a corda possa descansar a ponto de ficar em condicoes similares a de uma corda nova, ou ainda, isso pode efetivamente acontecer?”

“Qual e a diferença se tivessemos usado um freio realista e dinamico ao inves de um freio estatico”

“Que tal fazer esses testes com uma corda ainda mais fina?”

“E como fica se usarmos corda dupla? Ou gemea?”

“ qual o efeito de folgar o seu no ou deixar a corda descansar tem um efeito melhor num mundo real com cenario de cargas realisticas?”

Quem sabe um dia,

Escale com seguranca.

KP

Fonte: Black Diamond

Como Içar Haul Bag

Puxe sua bagagem para escalar mais rápido e mais forte

Verdade simples: Tentativas de escalar “Leve e Rápido” normalmente significa pesado e lento. Para evitar estigma de levantar a mochila, muitos escaladores sentem que precisam ter tudo pendurado no próprio Baudrier. Garrafas de agua, tênis de aproximação, loops de equipamentos,  fitas, enrolados ao redor do dorso, ficando no caminho. Se isso soa parecido com você, desequipe-se e suspenda! Aqui estão algumas razoes para você suspender o equipamento, dicas de como fazer, e algumas precaucoes desenvolvidas ao longo de anos de experiência.

Porque puxar?

Em algumas escaladas em livre, você não pode se ater a apenas uma corda, então e comum trazer duas. A menos que você esteja escalando com uma corda dupla, sistema que a maioria dos escaladores americanos normalmente não fazem. Eles costumam carregar uma retinido. E mais eficiente e menos cansativo prender todo o seu equipamento ao final dessa corda, ao invés de manter tudo preso a sua pessoa.

Não ter que carregar uma mochila com você também significa poder trazer consigo alguns itens extra como um chapéu e luvas de aquecimento, cobertor e talvez ate um isolante termico. Você pode estar melhor preparado para o mau tempo, para a descida ou para armar bivaques improvisados. Mais, Içar lhe permite escalar mais forte. Carregar grandes pecas moveis, tênis de aproximação, agua e equipamento para tempestades em uma pequena sacola de içar, libera o escalador guia a seguir mandando graduações muito mais duras. Se a escalada e maior do que 10 enfiadas, içar pode tornar-se muito lento, mas se a rota é íngreme, com um bom nível de dificuldade, içar pode se tornar um grande beneficio. Você pode estar um pouco mais lento, do inicio ao fim, mas também terá muito mais diversão.

Como Puxar

A técnica da sacola leve e simples. O guia carrega a ponta da retinida, clipado ao loop traseiro do baudrier. Apos ter montado a próxima segurança, clipar a linha do haul em algum lugar que permita a melhor rota de subida, com menos atrito, e então puxar pra cima pela corda livre da retinida que esta amarrada na outra ponta ao Haul Bag. Neste ponto, o participante devera encordar o Haul Bag com um oito laçado, soltar a ancoragem do Haul Bag, enquanto o guia se prepara para içar o Haul Bag. Espere até ter puxado o resto da corda para ancorar novamente.

Neste ponto, grite, “Pronto para puxar” ao participante. Se a comunicação de voz e difícil, concorde com alguma comunicação via sinal na corda. Eu costumo usar três puxões na corda para indicar que estou pronto para puxar o haul bag. Esteja pronto para segurar o peso das sacolas, mas não comece a puxar imediatamente, pois o participante precisara de alguns segundos para desclipar a sacola da ancoragem.

O Segundo pode agora livre da sacola, ao desclipar da ancoragem gritar: “Sacola Liberada!” / “Haul Liberado” e então liberar lentamente o peso da sacola na linha retinida ou deixar o guia suspender a sacola com suas próprias mãos, apenas direcionando o caminho da sacola.

O Segredo para puxar sacolas em uma escalada esta concentrada em uma única coisa, Conservar Energia. Não tenha medo de tomar um pouco mais de tempo para montar um sistema eficiente que conserve as forcas dos seus braços. Com um carregamento mais leve você fica confiante que pode simplesmente puxar a sacola e a corda mao-a-mao. Com uma sacola mais pesada, redirecione a corda e a sacola através de um mosquetão, o mais alto possível na segurança e use um sistema de alavanca progressiva.

“Para uma alavanca você precisara de um equipamento especifico. Eu costumo usar o Petzl Triblock no modo Locking Pulley”. Com a configuração da figura 1,  você puxara a corda que conduz diretamente ao saco, puxe para baixo, uma vez que esta corda estará passando por um mosquetão que redireciona o sentido da forca, e deixe os dentes do Tribloc agarrar a corda e segura-la entre puxadas. Descansar tão frequentemente quanto você precisar, mas se estiver muito pesado tome um pouco de tempo para montar uma alavanca auxiliar para o pe figura 2,usando um Ropeman da Wild Country ou outro tipo de micro-equipamento do estilo. Maos, não o pés, são os primeiros a cansar em uma escalada longa, então não gastes suas forcas para puxando sacolas. Use os músculos mais fortes das pernas para empurrar o Ropeman para baixo enquanto puxa através do Tribloc então puxe a folga através do Ropeman, que ira se mover de volta pra cima na corda.

Uma vez que você tiver o sistema de puxar sacolas montado, puxe a sacola e clipe na equalização, em algum lugar fora do caminho, mas acessível. Eu costumo deixar a corda após puxada, pendurada livre ate que eu esteja pronto, então repasso toda a corda para que o guia fique com a ponta da corda e ela esteja desembaraçada. Agora você pode se preparar para dar a segurança na próxima enfiada.

Se tudo for bem, o processo inteiro de puxar sacolas não deve durar mais que 10 minutos. Isso é uma hora extra para cada seis enfiadas, mas você poderia ganhar muito desse tempo sendo mais rápido, mais leve.

Dicas:

  • Nunca use cordas finas dinâmicas, cordas duplas, como retinidas. A elasticidade e horrível para fazer rapel e muito perigoso para arestas, caso seja preciso ultrapassar uma. A melhor corda para puxar equipamento e a corda de 60 metros de 7mm a 8mm estática, que você pode achar com preços bem razoáveis.

  • O no de amarração e de alta abrasão, em rochas ásperas, você pode rapidamente estragar a corda após algumas enfiadas, então eu gosto de proteger o no com a parte superior de uma garrafa plástica cortada.

  • Use um saco maior. Sacolas super compactas são ótimos mísseis, mas normalmente são muito pequenas para um dia inteiro nas alturas. Uma sacola menor e melhor de puxar kg a kg que uma sacola mais larga, mas uma sacola um pouco mais larga ira lhe permitir acessar os itens mais facilmente. Escolha uma sacola especificamente preparada para carregar equipamento em paredes (Haul Bag), ou ela vai ficar toda esgarçada após um ou dois usos.
  • Transporte Simples. Pegue uma dica com escaladores de Big-Wall mais experientes e assegure-se que a sua sacola se encaixa perfeitamente. Cintas e alças vai enganchar, então remova-os. Nunca amarre qualquer coisa do lado de fora da sacola. Quando você amarrar a carga, a parte superior devera ser o mais afilado possível para que ele possa se mover mais facilmente passando pelos tetos e grandes percursos.

  • A Queda de um Haul Bag pode causar a queda de pedras, então seja cauteloso quanto estiver puxando de cima e quando estiver na seguranca, abaixo. Em geral o guia puxa a sacola antes de montar a seguranca ao participante (assim o participante pode ajudar a desenganchar a sacola caso ela fique presa, se necessario), mas deixe o próximo escalador fora da zona de perigo.

OBS.: Este artigo é apenas uma das possíveis fontes de informação, não devendo no entanto ser usado como fonte exclusiva de informações antes de empregar as técnicas aqui descritas por tradução livre, sugerimos que para a prática antes de ir a montanha procure o clube de escalada mais próximo ou escaladores mais experientes que possam compartilhar suas experiências. Não se ponha em risco desnecessário, prime pela segurança antes de tudo.

 

“Ainda Não Mijei Hoje”

Minha primeira impressão da serra do Cuó foi incrível. A vista de longe é de duas enormes paredes laranja que só me lembravam as imagens que vi das tão aclamadas paredes da Catalunia espanhola. Já passavam da 9:30 da manhã e o sol não estava de brincadeira, a trilha era claramente longa e exposta, o que me deixou com um sentimento misto de “eu preciso ir nessa linda parede AGORA!” intercalado com “Eu não quero subir essa trilha de jeito NENHUM! ” Para minha sorte (ou não) os amigos Janine Falcão e Allyson Laurentino tinham programado algo bem mais amigável para o pouco tempo que tínhamos disponível. Acontece que ao longo da inclinada vegetação que se forma aos pés dos dois paredões, a superfície é recoberta de enormes blocos de pedra, tão grandes quanto a famosa pedra do Urubu no Rio de Janeiro. Blocos que talvez tenham rolado dos paredões em algum momento do passado, análise que deixo pros geólogos. Muitos blocos, com todas as faces verticais e negativas, oferecendo inúmeras vias e permitindo que os escaladores escolhessem o lado da sombra e se ajustassem a mesma ao longo do dia. E o que mais me chamou a atenção foi a existência de fendas, muitas fendas, e devo admitir que esportiva com proteção móvel é um dos meus estilos favoritos. Escalei algumas vias ali e no fim me deparei com uma linha que me chamou muito a atenção. Perguntei que via era e o Allysson me confirmou que era um projeto. Que o conquistador, Victor Hugo Vasco, tinha montado a linha mas não tinha conseguido a tão desejada “cadena” que move o escalador de esportiva. Me interessei e resolvi tentar. Primeiro em “top rope”. Se não tinha cadena devia ser muito acima do meu grau, mas para a minha surpresa não era. O grau da via concentra-se nos dois movimentos inciais, um boulder de calcanhar seguido de um movimento dinâmico. Cheguei a sugerir 7c, mas depois de escalar mais pelo nordeste achei melhor deixar 7b, sim amigos, o grau deles é duro! E a graduação deve ser mantida de acordo com o local. Na primeira tentativa guiando me “emocionei” e não consegui repetir a saída, a cadena só saiu depois de um descanso, um lanchinho e um terceiro e último “pega”. Virando o boulder a via fica bem fácil, algo como um 4o grau a ser protegido com um camalot .75 ou equivalente.

Já que o Allysson me garantiu que eu tava levando a “primeira ascensão” ele me deu o direito de dar o nome da via, e eu sugeri “Ainda não mijei hoje” singela homenagem ao “chilique” do dia anterior que só quem estava no 14 EENe presenciou. Depois de um dia no Cuó eu olhei pra trás de novo e voltei a encarar os dois paredões. Refleti sobre o local, sobre um 7b sem cadena e terminei com minha segunda e última impressão do Cuó. Muito potencial! Uma rocha magnífica, cheia de fendas, com oportunidades para todos os níveis, níveis de escalada ou de disposição. Um local que vem recebendo escaladores conquistadores, mas que ainda não tiveram tempo nem de encadenar as próprias vias, será que é porque ainda não conseguiram parar para escalar? De tanta parede que tem para conquistar? Porque cada linha que se abre, a próxima é mais bonita e mais chamativa? Só sei de uma coisa, se as 9:30 eu não tinha certeza se queria “chegar lá”, as 13:30 eu só pensava em chegar lá “de qualquer jeito!!!”