A Nuca de um segue

Publicado originalmente em climbing.com por Dra.Carla Cupido (tradução livre)

Apesar de “A Nuca de um segue” não ser um diagnóstico ortopédico oficial, é de fato uma dor chata para a maioria dos escaladores. Nós focamos tanto em evitar lesões durante a escalada que ignoramos a possibilidade de uma dor crônica de dar segue. É particularmente ruim porque ao longo de horas gastas com sua cabeça virada para trás ou torcida de forma estranha podem causar estragos em partes vitais do corpo, como a coluna e o pescoço. Todo mundo já sofreu disso – a sua nuca tocando as costas, olhos para cima com atenção no seu parceiro e ficando impacientes, esperando apenas que o parceiro acelere e termine logo a via, de modo que você não tem mais que ficar naquela posição esticada dolorosamente. Como escaladores, usamos o termo “nuca de um segue” para referirmos qualquer dor na nuca ou na parte superior das costas, mas há muitos diagnósticos diferentes na verdade. Leia este artivo para entender as causas e achar uma solução.

Tensão Muscular

Quando sua cabeça esta parada na posição vertical e sobre seus ombros, o impacto da gravidade sobre os músculos do pescoço é insignificante. No entanto, quando sua cabeça se move para frente, para os lados ou para trás de modo que ele não fica centrado sobre seus ombros, a gravidade puxa sua cabeça para baixo e os músculos próximos passam a apoiar o seu pescoço. Muito disto fará com que a musculatura fique tensa em excesso, o que pode ocorrer na parte frontal, lateral e posterior do pescoço.

Irritação das Juntas Vertebrais

Vértebras ficam empilhadas umas sobre as outras como blocos divididos por pequenos travesseiros, chamados de discos. Vértebras conectam-se através das articulações, que estão localizados no lado de trás da coluna vertebral. Quando sua cabeça esta na posição vertical, eles têm um espaço agradável entre eles; Este espaço aumenta quando você lha para o seu dispositivo de segurança (conhecido com o flexão) e diminui quando você olha para o seu parceiro de escalada (conhecida como extensão). Olhando para cima na prática deixa as vértebras pressionadas nas juntas das articulações. A longo prazo, essas juntas ficam inflamadas e relatam dores para o cérebro. Esta dor pode permanecer local ou piorar. A condição pode progredir para causar irritação neurológica e a dor vai começar a irradiar abaixo da área inicialmente irritada para baixo em sua parte superior das costas e ombros.

Irritação da Raiz Nervosa

A Coluna protege a médula espinhal. Entre cada bloco vertebral a médula espinhal dispara um nervo que sai da coluna vertebral e fornece determinados tecidos (músculos, pele, ossos, etc.) com outros nervos que permitem que nossos corpos para mover e sentir. Quando há inflamação em qualquer área ou outra obstrução que interfere com a via deste nervo, ele fica com raiva e deixa seu cérebro saber por meio da dor. Obstruções poderia incluir qualquer coisa de inflamação para as articulações ou mudanças degenerativas dos ossos.

Síndrome do desfiladeiro torácico (TOS)/ Compressão do nervo

Quando seus músculos ficam tensionados, eles podem pressionar nervos que passam através e por baixo deles, similar a quando sua corda velha e suja não corre suavemente através do seu freio. Há basicamente menos espaço disponível para o nervo passar devido a pressão e a inflamação. Uma nuca tensionada pode pressionar os nervos que passam através dos seus ombros, braços e mãos.

Dicas de prevenção

Alguns poucos problemas podem evoluir com o tempo devido a movimento repetitivo de “dar segue”, incluindo dores de cabeça devido a tensões musculares e irritações das juntas bem como mudanças degenerativas (artrite). Prevenção é a chave. Independentemente da sua dor especifica ou do diagnóstico as dicas a seguir vão lhe proporcionar algum alívio.

Altere o Equilíbrio

Dependendo da escalada ou da cordada, isso pode não ser possível. No entanto, quando você muda seu posicionamento dos pés, pode mudar o angulo em que você olha para seu parceiro.

Movimento é o Lubrificante

Quanto mais você mover o pescoço ao redor, menos o seu pescoço vai sofrer. Esteja atento ao seu parceiro de escalada, mas depois de um clipada ou enquanto ele estiver descansando aproveite para movimentar-se. Olhe para cima, olhe para baixo, incline a orelha direita para o ombro direito, orelha esquerda para ombro esquerdo, vire a cabeça para a direita e esquerda. Variar a posição é provavelmente a coisa mais importante que você pode fazer para evitar a dor na nuca.

Obtenha algumas bolas

Duas bolas de tênis em uma meia pode se tornar seu melhor amigo na rocha. Deite de costas e posicione cada bola (na meia) na base da seu crânio sob os músculos do pescoços que ficam tensionados. Suavemente massageie sua nuca com as bolas ou áreas isoladas e simplesmente fique ali sobre as bolas ou áreas isoladas para ajudar aquela musculatura a relaxar. A meia mantém as bolas de saírem da posição. Preste atenção ao tipo de “dor”, você pode experimentar com isso: Se é aguda e insuportável, pare e descanse e considere parar por um dia. Se é dor geral e sensação de aperto, que esta funcionando,  você deve sentir como uma boa massagem.

Faça pausas entre uma segue e outra

Você ficaria malhando um projeto seu insistentemente, sem dar ao seu corpo alguma recuperação entre uma tentativa e outra? Claro que não! Dar segue não é tão diferente. Pequenos músculos são forçados a fazer trabalho intenso durante um longo período quando dando segue, assim como os flexores do ante-braço estão em uma escalada. Entre cada segue, faça alongamentos suaves ou usa as bolas de tênis como descrito anteriormente. A pausa não precisa ser longa, apenas alguns minutos, mas seus músculos e articulações precisam de algum tempo fora do posicionamento da segue.

Fortaleça os músculos flexores do pescoço

Um pescoço forte ajudará a apoiar sua cabeça pesada e diminuir as chances de se lesionar durante uma segue, então pratique movimentos fortalecedores com o queixo em casa. Sente-se ou fique de pé e chame a sua cabeça para trás sobre seus ombros. Não olhe para cima nem para baixo, basta trazer a cabeça de volta. Mantenha a posição por cerca de três segundos e repita 15 a 20 vezes por série, três séries no total. Você também pode fazer deitado no chão, achatando a parte de trás do seu pescoço até o chão.

Técnicas Profissionais

Se você já teve dor leve ou aguda crônica, pergunte ao seu médico sobre os seguintes tratamentos.

  • Técnica de Ativar Relaxamento (TAR), também conhecido como relaxamento miofacial, alivia o tecido cicatricial na mioface (tecido muscular e tecido facial que fica à direita sob a pele). Ele faz maravilhas sobre os músculos tensos por todo o corpo. Quando os músculos tensos são liberados, que muitas vezes pode aliviar dores articulares;
  • Técnica Gastron® esta se tornando muito popular na terapia esportiva. Seis instrumentos de aço inoxidável são usados com esta técnica para gerir o tecido da cicatriz na mioface pela aplicação de uma raspagem pressurizada nas áreas afetadas;
  • Mobilizações e ajustes por um manual licenciada da prática são uma forma extremamente eficaz de gestão de determinados tipos de dores nas articulações;
  • Agulhas (acupuntura, IMS, etc) podem oferecer um impacto potente e positivo na rigidez muscular e na dor das articulações.

Como um Quiropraticista, escalador e instrutor de Yoga em British Columbia, Canada Cupido (drcarlacupido.com) acredita na educação do paciente como a parte mais importante no tratamento e recuperação de lesões.

Cordas precisam descansar?

Algumas semanas atrás eu estava em um pico de escalada local, quando um dos meus colegas perguntou se eu me incomodaria de responder uma questão “tecnico-científica típica questão de engenharia”. Ele queria saber porque cada queda que ele levava enquanto estava desenvolvendo seus “projetinhos” pareciam progressivamente mais dolorosas. Eu mencionei que uma velha publicação da Freedom of the hills assim como uma numerosa quantidade de revistas de escalada mencionavam sobre deixar suas cordas “descansarem” entre quedas fortes ou mesmo trocar as pontas antes de tentar o movimento do crux novamente. Isto e claro para reduzir a sobre-carga sofrida, o que pode se tornar especialmente critico quando se escala com equipamento danificado, A Corda e a peca fundamental que ajuda a absorver energia quando o sistema esta elastecendo – e assim como um elástico, eh preciso tempo entre cenários de cargas expressivas para descansar e então poder absorver a máxima quantidade de energia no próximo esforço. Meu amigo me encarou, claramente não tendo a menor ideia do que eu estava falando.

Ele continuou e perguntou se haveria algo que ele poderia fazer para diminuir as dores nas suas falanges, e reduzir a carga de equipamento necessário. Mas alem disso ter uma segurança dinâmica. Use uma corda de alta elasticidade, folgue um pouco seu no após cada pequena queda (Porque os nos também absorvem energia durante uma queda), deixe a corda descansar entre cada tentativa, e use nylon slings e costuras que absorvam mais energia que a Spectra/Dyneema (que não elastece).

Para tentar colocar alguns números, eu e alguns integrantes do grupo QA Engenharia desenvolvemos um rápido plano de teste e executamos na torre de testes. Nos percebemos que tentariamos perceber diferenças de cargas sofridas em cada equipamento da proteção quando:

Executando sucessivas quedas o mais rápido possível na mesma corda
Descansando a corda 30 minutos entre cada tentativa
Folgando o no entre as tentativas
Deixando a corda descansar 2 horas entre as tentativa
Deixando a corda descansar um dia inteiro entre cada tentativa

Nota Informativa: Esse não pretende ser um teste complexo, nem tese de PHD, apesar do pequeno caráter cientifico. Claro que há muito muito mais que poderiamos fazer para melhorar isso. Esta informacao limitada a uma pagina de resumo e apenas uma tentativa de dar aos escaladores um pouco de alimento para a imaginacao. Apenas isso.

Configuração do Teste:
BD drop tower (sem certificação da UIAA)
80 Kg de massa rígida de aço
Freio Estático (isto e critico, apesar de ser atípico ou realista, e repetível e nos permite isolar variáveis que nos interessa)
Corda de 10,5mm (nova)
Corrente usado como costura
Cenário tipico de queda de guiada
Fator de queda: 0.26

Linhas gerais do teste (corda descansando 5 minutos entre as cargas)
Usando uma seção da corda no teste conforme descrito acima, a massa foi liberada e a tensão foi tensionada (na parte superior do equipamento).
A massa foi subsequentemente levantada de volta ate a mesma altura e novamente jogada após a marca de 5 minutos.
O teste foi repetido por 10 vezes.

Folgando o No

Assim que as cargas era relativamente pesadas durante este teste, nos percebemos que não seria tão fácil folgar os nós, então nos decidimos colocar um mosquetão dentro do 8 duplo. Isso permitiu que folgassemos o no a cada queda, e a massa era subsequentemente levantada a mesma altura e jogada novamente a marca de 5 minutos.
Isso foi repetido por 10 vezes.

Corda descansando 30 minutos entre cada carga

Mesmas linhas gerais do teste anterior no entanto a corda descansou 30 minutos entre cada tensão de carga, repetido por 10 vezes.

Corda descansando 2 horas entre cada carga

Mesmas linhas gerais dos testes anteriores no entanto a corda pode descansar por 2 horas entre cada carga e só foi repetido uma vez.

Corda descansando 24 horas entre cada carga

Mesmas linhas gerais dos testes anteriores, no entanto a corda pode descansar 24 horas e a carga só foi liberada uma única vez.

Observações:

1. Como esperado, progressivamente os resultados aumentam as forcas.
2. As maiores cargas foram para a primeira e segunda carga, como esperado.
3. Folgar o no após cada queda reduziu um pouco a tensao, porem não muito.
4. Deixar a corda descansar 30 minutos entre cada tensao sofrida teve um efeito muito maior do que reduzir a tensao do sistema do que folgar uma corda, porem ainda não foi expressivo.
5. Permitir a corda descansar 2horas e 24horas teve um efeito de reduzir as tensoes na segunda carga.
6. Permitir a corda descansar 24horas ainda resultou numa tensao 11% maior do que na primera carga.

Conclusao:

Folgar o seu no, ou deixar a corda descansar antes da próxima queda reduz os impactos das cargas levemente. No entanto, usar cordas diferentes para cada tentativa ou trocar os lados da corda produz um efeito muito mais positivo. E claro que a melhor opção para manter as tensoes no sistema minimizados e não cair, em primeiro lugar. Como declarado anteriormente, isto não e um estudo exaustivo e existem muitos outros testes e experimentos que poderiam ser realizados se não estivessemos ocupados fazendo o melhor equipamento de escalada do mundo. Por exemplo:

“Quanto tempo demora para que a corda possa descansar a ponto de ficar em condicoes similares a de uma corda nova, ou ainda, isso pode efetivamente acontecer?”

“Qual e a diferença se tivessemos usado um freio realista e dinamico ao inves de um freio estatico”

“Que tal fazer esses testes com uma corda ainda mais fina?”

“E como fica se usarmos corda dupla? Ou gemea?”

“ qual o efeito de folgar o seu no ou deixar a corda descansar tem um efeito melhor num mundo real com cenario de cargas realisticas?”

Quem sabe um dia,

Escale com seguranca.

KP

Fonte: Black Diamond